As Amazonas de Daomé e os Quimbanda

Por Prof. Dr. Lenin Campos Soares

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Tal como os índios, os escravos trazidos da África tinha inúmeras práticas homoeróticas que foram especialmente combatidas pelos senhores de engenho, assombrados pela lascívia negra. Como os negros vindos para o Brasil eram oriundos de diversas tribos distintas, as práticas relacionadas ao amor entre pessoas do mesmo sexo eram também muito variadas. Entre a etnia Nupe ou Tapa (como os lusobrasileiros conheciam), habitantes da Nigéria, haviam homens que viviam como mulheres, hoje os chamaríamos de transexuais, e eles eram conhecidos como gunnu e a tolerância ao lesbianismo era muito maior do que as relações entre homens, porém durante as festas conhecidas como Gami, essas regras eram suspensas e qualquer pessoa poderia experienciar relacionar-se com quem quisesse. Entre os Iorubá e Nagô, da região de Benim, os homens e mulheres mais velhos ensinavam os mais jovens a praticar o sexo, e como explica Luiz Mott, era bastante comum que as meninas e meninos mantivessem relações com suas amigas e amigos, sobretudo masturbando-se mutuamente, entre estas tribos somente a masturbação solitária era mal vista, indicando egoísmo.

Nas tribos Fon nós temos as Amazonas de Daomé, uma tribo composta somente por mulheres, bastante feroz em batalha, que se separavam dos homens, tendo relações amorosos apenas com as mulheres de suas tribos e se reproduzindo a partir dos escravos masculinos que capturavam em suas batalhas. Elas se chamavam Ahosí e seu valor em batalha era inestimável, como explica o major francês Leónce Grandhim, escrevendo em 1895: “O valor das amazonas é real. Treinadas desde a infância com os mais árduos exercícios, constantemente incitadas à guerra, elas levavam às batalhas uma fúria verdadeira e um ardor sanguinário. Inspirando com sua coragem e sua energia indomável tropas que as seguiam”. Porém poucas dessas mulheres vieram como escravas para o Brasil, isto porque Daomé vendia escravos para os portugueses, ou seja, elas muitas vezes atacavam tribos vizinhas, sobretudo o Reino Yorubá (seu principal inimigo) e Ardra (seus vizinhos mais próximos); e capturavam escravos que eram vendidos aos portugueses em troca de cachaça, açúcar e fumo. Em 1645, quando Houegbadja tornou-se rei de todo Daomé, instaurando um império, ele subjugou as Ahosí e as integrou ao seu exército, elas passaram a ser chamadas de Mino, “nossas mães”, e faziam a guarda do palácio real. Sua habilidade fez com que, a partir do reinado de Ghezo (1818), elas já representassem um terço de toda força militar de Daomé. Quando a França invadiu seu território, em 1890, iniciando as Guerras Franco-Daomeana, elas foram caçadas pelos soldados franceses. Porém deram bastante trabalho, somente com uso da recém inventada metralhadora, o exército francês conseguiu uma superioridade militar para derrotá-las.

Antônio de Oliveira Cardonega, em seu História Geral das Guerras Angolanas, fala especialmente das tribos angolanas, como os bantu, em que os homens vestiam-se de mulher, conhecidos como quimbanda. Os bantu foram trazidos para o Brasil em maior quantidade que todos os outras tribos, sobretudo para região sudeste. No nordeste brasileiro, a maior parte dos escravos vem da região de Benim, Nigéria e Daomé, os iorubá e nagô, conhecidos como Minas. Estes que serão perseguidos pela Inquisição no território brasileiro como explica Luiz Mott em seu livro O Sexo Proibido: vigens, gays e escravos nas garras da Inquisição.

Entre os negros, os quimbanda era profundamente respeitados. Eram considerados poderosos curandeiros, com uma sabedoria (umbanda) que nenhum outro poderia alcançar, por estarem em contato com o masculino e o feminino, sendo o significado da palavra “o caminho que se entrecruza”, como explica Mário Filho. Luiz Mott, em seu artigo Etno-história da homossexualidade na América Latina conta o caso do escravo Francisco Manicongo, oriundo do Congo, que foi denunciado a inquisição em 1591, que se recusava a usar as roupas masculinas que seu dono lhe entregava, conservando seu costume desde que chegara ao Brasil. E como as Ordenações Manuelinas (o conjunto da legislação portuguesa de 1612 a 1603) considerava crime um homem travestir-se de mulher ou uma mulher usar vestimentas de homem, como podemos ver adiante, mesmo os escravos estavam proibidos de usarem roupas de um outro gênero.

“Defendemos, que nenhum homem se vista, nem ande em trajos de mulher, nem mulher em trajos de homem. Nem se mesmo andem com mascaras, falo se for pera algumas festas, ou jogos; e quem o contrário de cada uma das ditas coisas fizer, se for piam seja açoitado publicamente, e se for Escudeiro, e ou acima, será degredado dois anos para Alem, e mais cada um, a que cada uma das ditas coisas for perdoado, pagará dous mil reaes para quem o acusar” (ORDENAÇÕES MANUELINAS, Livro V, Título XXXI).

Apesar da perseguição civil, além da religiosa, se é que podemos fazer essa separação no período colonial, onde havia o padroado, estes quimbanda se recusavam a abandonar seu gênero feminino, e muitos foram açoitados somente para repetirem seu “crime” logo depois. Resistindo bravamente a colonização espiritual que o catolicismo tentava impor.

Para Saber Mais:

Luiz Mott. Relações raciais entre homossexuais no Brasil colônia.

Mário Filho. Umbanda e Kimbanda: estudo sobre suas fontes etimológicas.

Raymundo Nina Rodrigues. Procedências Africanas de Negros Brasileiros.

Roberta Machado. Pesquisadores apresentam o mais completo estudo sobre o genoma brasileiro.