As Tribos Indígenas no Rio Grande do Norte.

Por Prof. Dr. Lenin Campos Soares

Em 2010, os índios norte-riograndenses correspondiam a apenas 0,42% da comunidade nativa brasileira, sendo assim o Estado com a menor população indígena no Brasil, hoje temos treze comunidades indígenas no Rio Grande do Norte: os Sagi-Trabanda, em Baía Formosa, cujo povo se declara Potiguara; os Catu, em Canguaretama e Goianinha, que se identificam Potiguaras Eleotérios; os Amarelão, em João Câmara, que dividem-se nas comunidades de Serrote de São Bento, Santa Terezinha, Marajó, Açuncena e Cachoeiras, formadas por um único povo que se denomina Mendonças Potiguaras do Amarelão, estes índios tem inclusive migrado para a capital do Estado, firmando-se no Conjunto Cidade Praia; temos Caboclos de Açú, que se afirmam índios Caboclos; a comunidade da Lagoa do Tapará, formada por Tapuias Trarairiús, uma das mais importantes tribos tapuias; e da Lagoa do Apodi, cujos índios se reconhecem Tapuias Paiacús. Em Natal, ainda temos a comunidade de Gamboa do Jaguaribe que se identifica como Potiguara. Apesar dessas informações, a nossa historiografia clássica afirmou durante muito tempo que os índios do Rio Grande do Norte teriam sido dizimados por epidemias e guerras ainda durante a colônia. Não havia restado nenhum. Assim Câmara Cascudo, por exemplo, encerra seu capitulo sobre os índios norte-riograndenses, em seu História do Rio Grande do Norte:

“Em três séculos toda essa gente desapareceu. Nenhum centro resistiu na paz às tentações d’aguardente, às moléstias contagiosas, as brutalidades rapinantes do conquistador. Reduzidos foram sumindo misteriosamente, como que sentindo que a hora passara e eles eram estrangeiros na própria terra”.

Que gente era essa que erroneamente Cascudo e outros historiadores clássicas acreditavam que havia desaparecido? Primeiramente vamos falar dos índios Potiguara (ou pitiguar ou petiguar), que tinham um território que se estendia do rio Guaju (na praia do Sagi), na Paraíba, até o rio Jaguaribe (que banha Canoa Quebrada), no Ceará, sempre costeando o litoral. Ao Sul de Natal, haviam três tribos potiguaras: os Paiaguás, que habitavam a região entre os municípios de Vila Flor, Canguaretama, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo; os Jundiás, que habitavam entre Lagoa Salgada, Vera Cruz e Bom Jesus; e os Guaraíras, que habitavam Arez, Nísia Floresta, São José do Mipibu, Macaíba, Parnamirim e Natal, até a margem sul do Potengi. Ao norte do rio que corta a capital, habitavam os Ibirapi, até a ribeira do Açu.

Além dos Potiguara, que eram índios tupis, haviam os índios chamados de Tapuia pelos próprios tupis, palavra que significa “língua travada”, isto porque eles não pertenciam ao mesmo tronco línguístico que os tupis. Os historiadores acreditam que estes índios tapuia viviam no litoral e foram expulsos por invasores tupis que migraram do sul do país, da região do Paraguai. Estes são classificados em inúmeras tribos sendo a mais famosa os Cariri. Estes habitavam desde a ribeira do Rio São Francisco até a foz do Rio Açu. Outra tribo importante é dos Caicós ou Curemas, um ramo dos Icós, habitavam a região do Seridó. Os Moçoró ou Mouxoró, junto aos Tarairiú e os Caboré, se tornaram famosos por causa dos conflitos com os fazendeiros durante todo o século XVIII e XIX, nas ribeiras dos rios Mossoró, Apodi e Upanema. Os Taririú, no entanto, como explicam Luiz Eduardo Suassuna e Marlene Mariz, não devem ser tratados como um grupo único. Eles estavam divididos como Janduís (cujos chefes Janduí e Canindé são heróis da resistência indígena), Pegas, Jenipapos, Panatis e Javós, espalhados em diversas regiões da margem oeste do Rio Açu. Outra tribo importante para ser citada é a Paiacú, cujo território se estendia da Serra do Apodi até o Ceará, valente e aguerrida, esta tribo combateu com afinco a expansão das fazendas de gado na Caatinga, mas isso fica para outro texto.

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Note, e o mapa vai ajudar bastante nisso, que as pesquisas sobre os índios do litoral e dos tapuias no interior, criaram um buraco sem informação: quais são os índios que vivem (ou viveram) no Agreste Potiguar? Ou seja, ainda há muito o que descobrir sobre os índios do Rio Grande do Norte.

Para Saber Mais

Fátima Martins Lopes. A miscigenação nas vilas indígenas do Rio Grande do Norte.

Fátima Martins Lopes. Em nome da liberdade: as vilas de índios do Rio Grande do Norte sob o diretório pombalino no século XVIII.

Luiz Eduardo Suasssuna e Marlene Mariz. História do Rio Grande do Norte colonial