Lugar de Mulher é na Filosofia

Por Prof. Dr. Lenin Campos Soares

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Já ouviu falar de Nísia Floresta? Nascida Dionísia Gonçalves Pinto, em 12 de outubro de 1810, na fazenda Floresta, em Papary, município que hoje tem o nome de sua moradora mais ilustre. Ela adotou o pseudônimo de Nísia Floresta e ganhou o título de Brasileira Augusta em 1832 após lançar seu primeiro livro Direito das Mulheres e Injustiças dos Homens, uma tradução/adaptação do texto Mary Wollstonecraft, que fez com que Maria Lúcia Pallares-Burke a considerasse uma plagiadora (mas vamos chegar a isso depois). Era filha de pai português, Dionísio Gonçalves Pinto, que atuava como advogado, e mãe brasileira, Antônia Clara Freire, herdeira das terras de Papary. Tinha três irmãos: Clara, Joaquim, e uma meio-irmã, do primeiro casamento de sua mãe, que, após tornar-se viúva, contraiu segundas núpcias. Por causa do trabalho do pai, e também do sentimento antilusitano que explodiu com a Revolução Pernambucana, em 1817, mudou-se de Papary para Goiana, Pernambuco, onde inicia suas primeiras letras no Convento das Carmelitas na infância. Estimulada pelo pai, ela frequentava diariamente a biblioteca do convento, até ser forçada a casar aos 13 anos, em 1823, com Manuel Alexandre Seabra de Melo. Marido que ela abandona poucos meses depois, sendo recebida pela família novamente. O escândalo, no entanto, os faz deixar Goiana e instalar-se em Olinda.

Na capital da província, Dionísio Pinto atua como advogado, se colocando contra as elites locais, sobretudo a família Cavalcanti, até ser assassinado em 1828. Nísia que conta a história da morte do próprio pai em seu primeiro livro: “Esse advogado, que fizera triunfar o direito de seu pobre cliente, alvo da injustiça atroz de um tal tirano, caiu de improviso sob os golpes de assassinos pagos por ele” (Nísia Floresta, Direito das Mulheres e Injustiças dos Homens). A morte do pai é um severo abalo na vida de Nísia, o que a faz se aproximar ainda mais do ajudante dele, o estudante da Faculdade de Direito de Olinda, Manuel Augusto de Faria Rocha. Eles iniciam um namoro, e Nísia passa a sofrer acusada pelo primeiro marido de adultério. Isso não a impede, no entanto, de ter uma filha com Manuel Augusto, que batiza Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em janeiro de 1830.

Com uma filha e sofrendo as acusações do primeiro marido, Nísia resolve responder através da literatura. Ela começa, em 1831, a publicar num jornal pernambucano chamado Espelho das Brasileiras textos questionando a condição feminina e

No ano seguinte, ela lança a sua versão do livro de Mary Wollstonecraft, A Vindication of the right of woman, que ela batiza como Direito das Mulheres e Injustiças dos Homens. Alguns pesquisadores consideram um plágio, outros dizem que ela faz adaptações necessárias a realidade brasileira, alterando o texto de modo tão significativo que se torna dela. Porém, todos concordam que:

‘A tradução cultural operada por Nísia no texto funda os primeiros ideais de uma consciência feminista no país, despertando a sociedade para a importância da participação feminina na vida pública e ao mesmo tempo reivindicando para a mulher a conquista de espaços nunca antes permitidos, aponta para o sentido de que é possível fazer da tradução uma forma de compreender o direito ou, até mesmo, de lutar por ele” (Alana Lima de Oliveira, Nísia Flores em ‘Direitos das Mulheres e Injustiça dos homens) .

A principal teoria defendida por Nísia Floresta é que a mulher deveria ser considerada um indivíduo donos da propriedade de si mesmos. Além disso ela defendia o fim da clausura doméstica, isto é, da impossibilidade da mulher ter uma vida fora de suas próprias casas, deixando a margem da sociedade, como um ser apolítico; e o direito a educação, que Nísia entendia como base para a emancipação feminina. Diz Mônica Karawejczyk que por causa disso Nísia se torna percursora do feminismo não somente no Brasil, mas em toda América Latina.

Famosa, nos anos seguintes temos os seus textos publicados no Rio de Janeiro. E as ameaças de seu marido somente aumentam. Em 1832, ela se muda com toda família para Porto Alegre, com exceção do irmão, Joaquim, que admitido na Faculdade de Direito, permanece em Olinda, porém seu amado Augusto morre um ano depois da chegada na cidade, tornando-a a chefe de uma família composta basicamente por ela, a filha, sua mãe e duas irmãs. Quando estoura a Revolução Farroupilha em 1835, ela está no centro do embate, já que era amiga íntima de Anita Garibaldi, como conta Constância Duarte. No entanto, resolveu fugir da batalha em 1838, fugindo para o Rio de Janeiro, onde no mesmo ano fundou o seu Colégio Augusto, anunciado com entusiasmo pelo Jornal do Commércio.

“Quando a educação feminina era direcionada para o desenvolvimento das aptidões domésticas, no Colégio Augusto as meninas aprendiam latim, francês, italiano e inglês, gramáticas e literaturas, noções de geografia e história do país, a prática da educação física. Outro diferencial dessa instituição de ensino foi a limitação do número de alunas por sala com o objetivo de conferir mais qualidade ao aprendizado. Assim, Nísia Floresta foi duramente criticada, havendo inclusive uma campanha de difamação nos jornais da Corte, uma vez que mulheres que recebiam maior nível de instrução eram alvos de desconfiança.” (Luma Pinheiro Dias, Nísia Floresta e a escrita em defesa da educação feminina nos oitocentos).

O Colégio Augusto funcionou na corte por dezessete anos, até 1854. Sofrendo críticas como esta d’O Mercantil: “Trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos” e vendo-a publicar seus livros Conselhos à minha filha, de 1842; Daciz ou a Jovem Completa e Fany ou o Modelo das Donzelas são de 1847 e versão sobre a igualdade de gênero, criticando duramente o Emílio de Rosseau, inclusive nos títulos, também é desse ano a publicação do Discurso às educandas do Colégio Augusto. Em 1851, o jornal O Liberal publicou uma série de artigos nomeados A Emancipação Feminina e em 1853 temos o Opúsculo Humanitário, livro que sintetiza o pensamento da autora sobre a condição feminina e as formas de construir igualdade entre os gêneros, baseava-se nos dados oficiais recentemente publicados pelo governo imperial, ela se posicionava contrariamente sobre as ideias do governo que considerava sem direcionamento pedagógico, sobretudo em relação ao ensino feminino. Isabela Campoi comenta que aqui ela critica também os diretores das escolas da Corte, sem citar nomes, os quais considera despreparados para atuarem no ramo da educação. Este livro chegou as mãos de Auguste Comte, filósofo francês, pai do Positivismo, autor do lema que estampa nossa bandeira: Ordem e Progresso. A maior pesquisadora sobre Nísia Floresta no Brasil, Constância Duarte, faz um comentário interessante sobre as suas obras:

“Em qualquer um deles é possível observar a hábil fusão que ela realiza entre o biográfico e o ficcional. E por vezes o componente autobiográfico é tão evidente que a gente se pergunta onde começa a ficção e onde se acha a realidade, pois obra e vida apresentam uma estreita relação de semelhança e dependência” (DUARTE, Constância Lima. As viagens e o discurso autobiográfico de Nísia Floresta).

Ainda em 1849, Nísia, acompanhada da filha, viajou a Europa onde permaneceu por um ano, mas foi em 1856, após o encerramento das atividades do seu colégio, que ela resolveu morar em Paris. Frequentando os salões, conviveu com Auguste Comte, filósofo; Alphonse Lamartine, poeta romântico, e Alexandre Dumas, autor de O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros.. Inspirada por essas palestras, viajou pela Itália, Grécia e Alemanha. Suas relações com Comte se estreitaram sobretudo quando este foi dispensado da Escola Politécnica. O filósofo francês, já com 56 anos, e muito doente, era sustentado pelos amigos, inclusive Nísia, que doava a Sociedade Positivista, pedindo anonimato. Isto criou um mito de que eles tiveram um casa amoroso. Um dos argumentos usado a favor desta teoria são as cartas trocadas que seriam por demais românticas (apesar de terem sido escritas durante o auge do Romantismo) para duas pessoas que são apenas amigos, porém o que aparece nas cartas é respeito intelectual e amizade. O problema talvez aqui seja que algumas pessoas não entendam que um homem e uma mulher possam ter uma relação de amizade e respeito sem necessariamente haver interesse romântico entre eles. Será isso? Ele morreu em 1857, somente um ano após eles terem se conhecido. Nísia participou do seu cortejo fúnebre.

Segundo Isabela Campoi, “a aproximação com o positivismo marcou o pensamento nisiano no que tange ao papel social das mulheres”. Enquanto no seu primeiro livro havia a defesa da atuação das mulheres em postos de comando, em seus textos após a estadia da França a preocupação é que a educação feminina se torne fator de elevação moral, importante para a instrução das crianças, que serão filhos destas mulheres bem educadas. O foco, antes da influência positivista, é na mulher; após ela, a influência nos filhos será o objetivo. “As mulheres tinham um papel importante nos preceitos do positivismo, já que, dotadas de uma superioridade moral, seriam capazes de regenerar a sociedade em contraposição à rigidez e à racionalidade masculina” (Isabela Campoi, O livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” de Nísia Floresta: literatura, mulheres e o Brasil do século XIX).

Nísia deixa Paris em 1871, quando estoura a Comuna de Paris, fugindo para a Inglaterra, e ainda passando por Portugal antes de retornar ao Brasil em 1872, mas retornou a Europa três anos depois. Viveu entre Londres, Lisboa e Paris até 1885, quando aos 75 anos contraiu uma pneumonia. Ela morreu em 24 de abril, na Normandia, na cidade de Bonsecours.

"Quanto mais ignorante é um povo, mais fácil é um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder" (Nísia Floresta)

Para saber mais:

ALMEIDA, Cleide Rita Silvério de, DIAS, Elaine Teresinha Dal Mas. Nísia Floresta: conhecimento como fonte de emancipação e a formação da cidadania feminina.

DIAS, Luma Pinheiro. Nísia Floresta e a escrita em defesa da educação feminina nos oitocentos.

DUARTE, Constância Lima. As viagens e o discurso autobiográfico de Nísia Floresta.

FREIRE, Luís Carlos. Nísia Floresta, a carta de Isabel Gondim e outros textos malditos.

OLIVEIRA, Alana de. Nísa Flores em “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”: política de tradução do feminismo.